JUROS
Para os especialistas, porém, mais importante do que a Selic definida pelo Banco Central será o comportamento da chamada curva longa de juros. É ela que influencia diretamente decisões de investimento que precisam de horizonte de vários anos, como construção, indústria, infraestrutura, aquisição de máquinas, fusões e aquisições e expansão de empresas.
“O que move preço não é quem vence, é a composição da equipe econômica, o desenho do Orçamento e a trajetória de despesa obrigatória”, afirmou André Matos, CEO da MA7 Capital.
Para ele, a reação de ontem demonstra que o mercado está antecipando possíveis mudanças no ambiente econômico. O desafio, porém, será transformar a expectativa em medidas concretas. “O mercado não precifica resultado de urna, precifica execução”, disse.
Matos também chama atenção para outro problema. Ao mesmo tempo em que a economia apresenta sinais de desaceleração, a inflação ainda permanece pressionada. O Focus aponta crescimento de apenas 1,40% para o PIB de 2027, enquanto a projeção para o IPCA deste ano está em 5,01%.
“Continuamos com uma economia que esfria sem comprar desinflação”, avalia.
Na avaliação dele, a previsibilidade fiscal será determinante para permitir que os juros caiam de forma mais consistente.
INVESTIMENTO
O impacto sobre os investimentos pode aparecer antes mesmo de uma redução mais intensa da Selic, segundo Antônio Patrus, CEO da Bossa Invest. Para ele, o custo de capital é especialmente importante para empresas de crescimento e para o mercado de capital. Com juros elevados, aplicações de menor risco tornam-se mais atrativas e aumentam a exigência de retorno para investimentos considerados mais arriscados.
“Eu olharia menos para a Selic de 2027 isoladamente e mais para o custo do capital de crescimento”, afirma.
Patrus calcula que, se uma taxa de desconto utilizada por um investidor cair de 20% para 18%, um fluxo de R$ 20 milhões previsto para daqui a cinco anos teria seu valor presente elevado de aproximadamente R$ 8 milhões para R$ 8,7 milhões.
Isso não significa, segundo ele, uma valorização automática das empresas, mas demonstra como a queda do custo de capital pode alterar a avaliação dos negócios.
“Capital de risco volta quando o investidor consegue enxergar uma saída futura com mais clareza, não simplesmente quando o Copom corta 25 pontos-base”, disse.
Para as empresas, a queda da Selic também poderá reduzir o custo do financiamento, mas os analistas alertam que a taxa básica não é o único componente do crédito.
“O custo final é formado pela taxa básica mais spread, risco, garantia, prazo e estrutura da operação”, explicou Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco.
Por isso, mesmo que a Selic termine 2027 em 11,5%, empresas consideradas de maior risco poderão continuar pagando taxas elevadas.
Segundo Friggi, uma redução de dois pontos porcentuais no custo de uma operação de R$ 10 milhões representa até R$ 200 mil por ano de diferença financeira sobre o saldo integralmente utilizado. Em uma operação de R$ 50 milhões, a diferença chegaria a R$ 1 milhão.
A tendência, segundo ele, é de que empresas com geração de caixa, garantias e estrutura financeira mais organizada sejam as primeiras a aproveitar uma eventual redução dos juros.
A sócia da Finscale, Letícia Moschioni, acrescenta que a melhora do ambiente financeiro não depende apenas de crédito mais barato. A eficiência no uso do capital de giro também pode liberar recursos para investimentos. “Minha estimativa seria de Selic entre 11,25% e 11,75% no fim de 2027, caso o cenário fiscal melhore depois das eleições”, afirmou.
CONGRESSO
O papel do Congresso aparece como uma das principais variáveis para transformar a reação positiva do mercado em uma mudança estrutural nas condições financeiras.
O CEO da Asset, Gustavo Assis, afirma que o primeiro turno, isoladamente, ainda não é suficiente para alterar sua projeção de Selic. Para ele, o Banco Central continuará olhando para inflação, expectativas, câmbio, atividade econômica e, principalmente, para a política fiscal a partir de 2027.
O que já mudou, segundo o especialista, foi a possibilidade de alteração da curva de juros.
“Se as próximas sinalizações apontarem para maior previsibilidade fiscal e uma trajetória mais sustentável da dívida, o mercado pode começar a reduzir o prêmio de risco antes mesmo de qualquer mudança efetiva na Selic”.
Assis pondera, porém, que a nova composição do Congresso não garante automaticamente uma agenda de ajuste fiscal. “Uma coisa é apresentar uma agenda fiscal; outra é conseguir transformá-la em medidas aprovadas pelo Congresso”, disse.
Fonte: Correio do Estado
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